Brasil, quantas caras você tem?

Por Ana Carolina*
“Vida de negro é difícil!
É difícil como o que!”
Ah, vocês não sabem quanto!
E ainda querem dizer isso a mim!
Quando branca, fui Isaura.
Se mulata, fui mucama.
E o que dizer das negras velhas?
No tacho, à beira dos fogões queimando os dedos por suas patroas.
Patroas, não! Minto. Donas.
As sinhás eram as donas.
Dizem que ser negro é ruim.
Ruim? Ruim.
Mas vocês não sabem o que é ser ruim.
Vocês não viram o que é a “mardade”. Não sabem o que é ser “ruim” de verdade: é ser capataz azedo, batedor de negro velho, cansado.
Que fiz eu?
Trabalhei, lutei, levantei este país.
O que ganhei?
Preconceito!
Escravidão!
Falta de dignidade!
Falta de moradia!
Falta de escola!
Só “pano, pau e pão”!
“Ah, mas hoje é diferente”, você pode me dizer.
Diferente nada!
“Sai para lá neguinho!”
Isso é meio de branco, me disseram no olhar.
Nos shoppings, nos bancos, nos altos escalões, vemos negros desfilar?
E o que dizer das empresas, dos governos, da presidência? Já viram um negro mandar? Ô coisa rara é ver um negro por lá.
E nas universidades? Já viram um negro estudar?
Poucos, eu sei. Ser negro aqui, assim, é ruim mesmo!
Criaram agora, um tal de sistema de cotas,
muitos não querem não.
Ela é a prova fiel da nossa discriminação, pois se tudo fosse mesmo tão igual, ela não precisaria existir não!
Preconceito disfarçado, Brasil este é o teu reinado que precisa um dia acabar:
_ Não chamem ela de negra! Ela não é negra não!
-Quem ela pensa que é? Aquela negrinha!
-Olha ali! Onde já se viu uma mulher daquela, bonita, loura, casada com um “negro” daqueles?!
-Veja que negra bonita!
Isso. Vejam só mais essa.
Falam até assim, e pensam que me elogiam, como se um negro não pudesse ser bonito.
Mas sou.
É bom para você saber:
é meu Criador lhe dizendo que sou gente!
Tão bela quanto você!
Tão humana, tão fraca e tão forte!
Nem mais, nem menos.
Lutemos pela igualdade, abaixo toda a maldade.
Chega de discriminação!
Brasil, quantas caras você tem?
És negro!
És branco!
És mulato!
És índio!
Amarelo e pardo.
Brasil, eu te fiz minha nação!
Trate-me como teu filho, me olhe com gratidão!

*Ana Carolina Roza Melo, é aluna do 1º ano do Ensino Médio, do Colégio José Augusto Vieira (CJAV).
Medalhista de Prata na Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB)
Medalhista de Bronze na Olimpíada Nacional de Ciências (ONC)
Primeiro lugar, na categoria “ensino fundamental, do 6º ao 9º ano”, no concurso “Cordel Covid”, promovido pela Cienart Sergipe (Ciências, Tecnologias e Artes de Sergipe).

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