Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada

“Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, é um livro com retumbante sucesso editorial, escrito por Carolina Maria de Jesus, escritora, compositora e poetisa. Foi publicado em 1960, vendendo mais de mil cópias em um dia, chegando a bater o recorde na época.
É um livro de autobiografia, possuindo uma linguagem simples e original. Na narrativa a personagem, passa dias, meses e anos escrevendo sua vida no seu diário, trazendo a personificação de outras mulheres faveladas e que viviam em condições análogas a sua.
A obra aborda diversos temas relevantes tais como, às desigualdades sociais e prostituição e deixa o leitor indignado com as situações vividas pela própria personagem: violência, fome, política corrupta, infância corrompida, privilégios.
A fome é um tema constante abordado pela autora, “o Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora”. As pessoas, principalmente as crianças, iam procurar comida no lixo, comida podre. Contudo, o maior receio de Carolina era que os restos de alimentos encontrados estivessem envenenados. Havia discriminação até na hora de comprar a própria comida, como foi relatada uma cena no frigorífico, onde é perceptível uma delimitação de espaços.
A desigualdade, ao longo do livro, vai se tornando cada vez mais gritante. É perceptível que políticos que viam a realidade da favela faziam diversas promessas. Doavam cobertores e alimentos. A população pensava: “dessa vez será diferente”, mas não acontecia nada diferente. Só a velha política assistencialista e com interesse apenas no voto da eleição mais próxima. Não havia nenhuma empatia desses políticos com a realidade ali vivenciada por tantos favelados. “O que eu revolto é contra a ganância dos homens que espremem uns aos outros como se espreme uma laranja”.
Na comunidade as mulheres eram espancadas pelos seus maridos. Carolina era diferente daquelas mulheres e as vizinhas tinham inveja dela, por ser uma mulher de personalidade forte e não querer se submeter a homem algum “Elas aludem que eu não sou casada. Mas eu sou mais feliz do que elas”. Com isso, essas vizinhas viviam implicando com Carolina, chegando até a bater nos filhos dela.
Muitas vezes, Carolina saia preocupada de casa, com receio que seus filhos estivessem sendo atacados pelas suas vizinhas implicantes.
Carolina sabia que a vida de uma criança na favela era muito corrompida. No livro há relatos de várias situações constrangedoras vividas por aquelas crianças. Quando os pais das crianças brigavam, as mulheres saíam nuas na rua. As crianças viam e começavam a fazer comentários pornográficos. Além disso, elas vivenciavam outras cenas grotescas, como ver os seus próprios pais tendo relações sexuais, xingamentos de diversos tipos, agressões…
A autora, e personagem protagonista da obra, ainda deixa claro a prostituição infantil. Crianças se prostituíam até mesmo com seus próprios pais, para conseguirem alguma quantia de dinheiro.
A história de Carolina Maria de Jesus é de inspiração, luta e batalha. Ela nunca deixou de lutar por aquilo que achava certo. Buscou formar o seu caráter - “Sei dominar meus impulsos. Tenho apenas dois anos de grupo escolar, mas procurei formar o meu caráter”.
É notório que as situações das favelas são péssimas e as desigualdades sociais são extremamente fortes. Além disso, há o preconceito enraizado na sociedade de pensar que as favelas são lugares para bandidos e criminosos, quando na verdade, tem pessoas guerreiras, batalhadoras que possuem família e um bom coração. “E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo”
Por Maria Clara Dias Ferreira*

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