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BRUZUNDANGA: A RÉPLICA “FIEL” DO BRASIL




Por Ana Luiza*

Em sua canção “Que País é esse? ”, a banda Legião Urbana traz à tona um triste estigma da história do Brasil, a corrupção. Escrita a mais de quatro décadas, a letra da canção nunca foi tão atual, quando questiona: “Nas favelas, no Senado, sujeira pra todo lado, ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação, que País é esse? [...]”. Essa crítica à condição dos Brasil e dos brasileiros é, também, uma verdadeira denúncia a ação fraudulenta de muitos dos agentes sociais, sejam governantes ou, até mesmo, à passividade do povo que por vezes se faz alia ao “jeitinho brasileiro”, acentuando as muitas mazelas existentes no país.

Movido por essa reflexão, os integrantes do Clube do Livro Sementes do Amanhã participaram na última quinta-feira, 15, através da plataforma virtual Google Meet, de mais uma reunião mensal de debate literário. A roda de conversa teve início por volta das 19h30min e trouxe para a discussão uma preciosidade da literatura brasileira, Os Bruzundangas, do impactante escritor Lima Barreto. A mediação ficou por conta de Maria Clara Fonseca e Joshua Snaijijara, atualmente alunos do Colégio Augusto Vieira (CJAV).

Com em todos os meses, a obra é lida é indicação de um apaixonado pela leitura, e desta vez não foi diferente. A curadoria ficou a cargo do sempre bem-humorado, Prof. José Uesele, mestre em história pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), professor e escritor. Possui também trabalhos culturais no âmbito do teatro estando envolvido com os grupos Louvor Sertanejo e Tecendo o Amanhã. Além disso, é membro da Academia Lagartense de Letras. Para o professor, a obra é “uma literatura engajada, reflexiva e necessária. Um verdadeiro murro no estômago da realidade nacional”. Na ocasião, também esteve presente a Prof. Taysa Mercia Damasceno, doutora em Linguística Aplicada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), também membra da Academia Lagartense de letras e professora do departamento de Letras vernáculas da UFS.

A discussão começou tratando, primeiramente, do inusitado título do livro e das primeiras impressões que os integrantes tiveram. Bem como, a história e fatos curiosos que marcaram a vida do querido escritor Lima Barreto, cujas informações trouxeram muitas reflexões sobre sua vida difícil, desde situações familiares até o preconceito constantemente sofrido dada a sua raça.

O termo “Bruzundanga’’ que significa, coisa inútil, sem utilidade, expressa a intenção do autor em satirizar os “mandachuvas” de sua terra que priorizam valores estrangeiros, desvalorizando a identidade nacional. Nesse sentido, o autor se utiliza dessa caricatura para denunciar os inúmeros desmandos que, segundo sua ótica, maculavam a história do país. A obra consiste em um estrangeiro falando sobre este país, através de cartas, tratando de inúmeros temas relevantes da sociedade do séc. XX. É imprescindível citar o quanto este livro consegue demonstrar verdadeiramente não só aquela época, mas também identificar muitas similaridades com o os acontecimentos do Brasil no séc. XXI, caracterizando a atemporalidade da obra.

Os participantes mostravam animação, apresentando suas ideias e pensamentos críticos à medida em que cada tema era posto em questão. Dentre as principais temáticas abordadas a política trouxe à baila os debates em torno dos políticos, das eleições, da corrução e do coronelismo. A educação? Era preciso ser doutor, não importa em que. Médico, advogado ou engenheiro. Você escolhe! A questão da nobreza doutoral foi amplamente criticada, pela supervalorização dos títulos em detrimento da real capacidade. Sobre a economia, falou-se das riquezas do país em contraste com uma imensa desvalorização da mesma. Trabalhadores rurais? Quem se importa com estes miseráveis?

Por fim, a triste conclusão que se chegou ao final do debate foi o questionamento sobre qual sociedade se estava debatendo? Será que as coisas realmente mudaram? Será que ainda podem mudar? Nunca saberemos se não ao menos tentarmos, para não fazer valer a frase do próprio Lima Barreto: “O Brasil não tem povo, tem público”. Transformo essa leitura em um desejo por um Brasil melhor.


*Ana Luiza é aluna do Nono Ano do Colégio Nossa Senhora D­­­a Piedade (CNSP)

P.S. O texto foi escrito foi produzido com a ajuda de um professor orientador.


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